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Guerra na Ucrânia: Rússia fecha rádio símbolo da democracia

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Rádio Eco de Moscou era livre e operada de forma majoritária pela Gazprom-Media, responsável também pela franquia NRJ na Rússia

A Rádio Ekho Moskvi (Eco de Moscou) foi retirada do ar no dia 1º de março pelo Roskomnadzor (Serviço Federal de Supervisão das Comunicações, Tecnologia da Informação e Meios de Comunicação de Massa da Rússia) devido a sua cobertura na invasão russa sobre a Ucrânia. Nesta quinta-feira (3), o Conselho de Administração votou pelo fechamento definitivo da estação. A emissora, que operava em 91.2 FM, foi criada no ocaso da União Soviética, em 1990. 

Durante esse período, a Rádio Ekho Moskvi operou como um símbolo da resistência democrática e da adaptação da sociedade civil russa à jornada que acabou na guerra da Ucrânia. O conselho dissolveu a emissora após o Roskomnadzor determinar que ela deveria sair do ar até que adequasse sua cobertura do conflito, retirando palavras como guerra e invasão da descrição da cobertura.

A agência reguladora russa entendeu que a Rádio Eco estava “deliberadamente espalhando informação falsa sobre a ação de militares russos” e fazendo “um chamado informativo para atividade extremista e violência”. O conselho entendeu que não seria possível mudar a linha editorial.

Essa não foi a primeira vez que a rádio foi retirada do ar. Ela também deixou de operar em agosto de 1991, durante o golpe que o partido comunista tentou dar em Mikhail Gorbatchov, acelerando o processo de decomposição da União Soviética, finada em 25 de dezembro daquele ano.

A operação da Rádio Eco de Moscou integra o Gazprom-Media, grupo de comunicação que mantém várias estações de rádio na Russia, inclusive uma franquia da francesa NRJ. O grupo é majoritário na operação da estação, mas a composição também conta com a “Echo of Moscow Holding”. 

Segundo reportagem da Folha, a Rádio Eco de Moscou fazia parte de uma certa oposição intelectual consentida pelo governo de Vladimir Putin. A Kremlin a tolerava como prova de sua maleabilidade ante a elite russa, que antes de tudo gosta de se ver como europeia e liberal nos costumes. 

O trabalho da emissora russa ainda pode ser conferido na internet, através do portal https://echo.msk.ru/. No dial FM, a estação tem 22 de agosto de 1990 como data de inauguração e 1º de março de 2022 como o último dia de sua operação. A marca também contava com uma rede presente em várias cidades russas, como São Petersburgo (91.5 FM), Volgogrado (101.1 FM), Chelyabinsk (99.5 FM), Ecaterimburgo (91.4 FM), entre outras. Estava em expansão e indicava que, através de sua rede, “o público potencial do Eco de Moscou nas regiões é de 46 milhões 835 mil pessoas”.

Operação Especial

Segundo as informações publicadas pela Folha de S.Paulo, para o governo russo, o termo que deve ser adotado pelas emissoras é “Operação militar especial”, cujo objetivo é “proteger o Donbass”, lar dos russos étnicos do leste ucraniano. A RT (Russia Today), TV estatal em inglês que foi banida em diversos países ocidentais, pela primeira vez usou a vinheta Guerra na Ucrânia no seu noticiário.

Isso ocorre no momento em que diversos de seus apresentadores anglófonos pediram demissão, inviabilizando o trabalho em algumas capitais europeias.

Clima tenso

O clima entre jornalistas é tenso. Entre aqueles que trabalham em emissoras estatais, o silêncio é a regra nas redações. Há especial preocupação com uma lei que está tramitando na Duma, a Câmara baixa do Parlamento (espécie de Câmara dos Deputados no Brasil), segundo a qual quem for pego “colaborando com outros países contra a Rússia” pode pegar de 15 a 20 anos de prisão.

Tal colaboração, avaliam, pode ser identificada no limite em uma inocente conversa acerca de suas condições de trabalho com colegas estrangeiros. As conversas têm migrado do Telegram, onipresente na Rússia, para aplicativos teoricamente menos expostos, como o Signal. Mas ninguém se sente seguro.

Com informações da Folha de S.Paulo